O avanço da genética e das tecnologias de reprodução trouxe novas possibilidades para aumentar a produtividade dos rebanhos brasileiros. Mas alcançar uma boa taxa de prenhez não significa, necessariamente, colocar mais bezerros no chão.
Doenças reprodutivas, problemas sanitários e falhas de manejo podem provocar perdas durante a gestação e comprometer a eficiência das matrizes, mesmo em propriedades que já utilizam ferramentas como a Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF).
Dados da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia) indicam que cerca de 18,7% das matrizes brasileiras foram inseminadas em 2024. Apesar da expansão da tecnologia, ainda existe espaço para melhorar os índices reprodutivos dentro das propriedades.
Da prenhez à desmama: onde estão as perdas?
Em alguns sistemas de produção, as taxas de prenhez ficam próximas de 70%, enquanto os índices de desmama permanecem ao redor de 60%.
A diferença entre esses indicadores mostra por que o acompanhamento da reprodução não deve terminar após o diagnóstico de gestação.
Entre as enfermidades relacionadas às perdas estão a Rinotraqueíte Infecciosa Bovina (IBR), Diarreia Viral Bovina (BVD), leptospirose e campilobacteriose.
Essas doenças podem causar perdas embrionárias e prejudicar os resultados reprodutivos do rebanho. No caso da BVD, parte dos animais infectados pode não apresentar manifestações clínicas, dificultando a identificação do problema sem acompanhamento sanitário e diagnóstico adequados.
Problema pode aumentar custo de cada bezerro
As consequências não aparecem apenas nos índices reprodutivos. As perdas podem reduzir a natalidade, ampliar o intervalo entre partos e diminuir a eficiência de cada matriz mantida na propriedade.
Com menos bezerros produzidos a partir do mesmo número de vacas expostas, o custo por animal nascido e desmamado tende a ganhar peso dentro do sistema produtivo.
Por isso, analisar somente a taxa de prenhez pode esconder problemas que acontecem posteriormente. É possível confirmar a gestação e ainda registrar perdas até o nascimento ou durante o período que antecede a desmama.
Manejo no curral também interfere na reprodução
Nem todos os problemas estão ligados diretamente às doenças. A maneira como os animais são conduzidos durante os protocolos também pode interferir nos resultados.
Excesso de ruído, instalações inadequadas, contenção e procedimentos que aumentam o estresse dos animais podem alterar respostas fisiológicas relacionadas à imunidade e à reprodução.
Assim, a organização das instalações, a condução do gado e os procedimentos realizados no curral precisam entrar no planejamento reprodutivo juntamente com os indicadores zootécnicos.
IATF não substitui controle sanitário
A adoção da IATF também não elimina a necessidade de um programa sanitário estruturado.
Vacinação, armazenamento e aplicação correta de medicamentos e vacinas, exames sorológicos e registro das informações da propriedade ajudam a identificar fatores relacionados às perdas reprodutivas.
O histórico dos dados permite comparar ocorrências sanitárias com os resultados obtidos pelo rebanho e, a partir disso, revisar protocolos e medidas de prevenção.
Prenhez sozinha não conta toda a história
Para avaliar a eficiência reprodutiva, o produtor precisa olhar para diferentes indicadores. Além da prenhez, entram nessa conta natalidade, desmama, intervalo entre partos, mortalidade e desempenho por matriz exposta.
Quando esses números são avaliados em conjunto, fica mais fácil identificar em qual etapa do ciclo estão ocorrendo as perdas.
Uma fazenda pode apresentar uma taxa satisfatória de prenhez, por exemplo, e ainda perder eficiência entre a confirmação da gestação, o nascimento do bezerro e a desmama.
Tecnologia precisa caminhar junto com manejo e sanidade
O desempenho reprodutivo é resultado de diferentes fatores trabalhando em conjunto. Genética, nutrição, sanidade, manejo, protocolos reprodutivos e gestão das informações precisam fazer parte do mesmo planejamento.
A expansão da IATF e de outras ferramentas oferece ao pecuarista maior capacidade para acelerar o melhoramento genético e organizar a reprodução. O aproveitamento desse investimento, porém, depende também da execução dentro da fazenda.
Mais do que alcançar uma boa taxa de prenhez, o resultado que interessa ao sistema é transformar matrizes expostas em bezerros nascidos e, posteriormente, desmamados. Identificar onde essas perdas acontecem é um passo importante para melhorar a eficiência e aproveitar melhor os investimentos realizados na reprodução do rebanho.
Fonte: Giro do Boi.