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MERCADO DO COURO

Couro bovino: exportações batem recorde em volume, mas faturamento recua

Mesmo com embarques em alta, queda no valor agregado dos produtos pressiona a receita do setor

Por Cássia Carolina
19 de abril de 2026 às 09h00
Couro bovino exportações batem recorde em volume, mas faturamento recua

FOTO: Reprodução l Scot Consultoria

O mercado de couro bovino começou 2026 em ritmo mais lento, mas já mostra sinais de recuperação nos preços, impulsionado principalmente pela menor oferta de matéria-prima. No entanto, apesar do avanço nos embarques, o faturamento do setor segue em queda — um cenário que acende o alerta para a perda de valor agregado na cadeia.

Preço do couro reage com menor oferta

Segundo dados da Scot Consultoria, divulgados em 14 de abril, os preços do couro subiram no Brasil Central. O couro verde de primeira linha está cotado em R$0,75/kg, enquanto o couro comum alcança R$0,65/kg, com altas de 15,4% e 18,2%, respectivamente.

No Rio Grande do Sul, a cotação chegou a R$1,00/kg, avanço de 11,1%. Os valores são à vista e livres de impostos.

Essa valorização está diretamente ligada à redução no abate de bovinos. A estimativa para o primeiro trimestre de 2026 é de 9,6 milhões de cabeças, queda de 3,8% em relação ao mesmo período do ano passado.

Volume recorde nas exportações

Apesar da menor oferta interna, o Brasil registrou forte desempenho nas exportações de couro bovino. Em março, foram embarcadas 58,7 mil toneladas, o maior volume já registrado para o mês na série histórica.

O resultado representa alta de 4,3% na comparação anual, embora tenha havido recuo de 4,2% frente a fevereiro.

A pauta exportadora segue concentrada em produtos de menor valor agregado:

  • Wet-blue: 70,5%
  • Couro salgado: 20,9%
  • Couro acabado: 5,9%
  • Crust: 2,0%
  • Aparas: 0,8%

Faturamento em queda mesmo com mais vendas

Na contramão do volume, o faturamento com exportações somou US$ 94,3 milhões em março, queda de 7,3% na comparação anual e de 1,9% em relação ao mês anterior.

O dado evidencia um problema estrutural: o Brasil está exportando mais, porém com menor valor agregado.

Enquanto o couro acabado — produto de maior valor — representa apenas 5,9% do volume, ele responde por 41,8% da receita. Já o wet-blue, dominante nos embarques, concentra 40,3% do faturamento.

Perda de valor agregado ao longo dos anos

A análise de longo prazo reforça essa tendência. Nos últimos 13 anos:

  • O volume exportado cresceu 28,5%
  • O faturamento caiu 61,9%

O principal motivo é a mudança na composição das exportações.

A participação do couro acabado caiu de 16,7% em 2014 para 7,1% em 2025. Já o couro salgado avançou de 1,0% para 21,2% no mesmo período.

Esse movimento indica que o Brasil tem exportado cada vez mais produtos em estágios iniciais de processamento, reduzindo o potencial de geração de receita.

Diferença de preços explica o cenário

Os preços médios por tipo de couro deixam claro o impacto do valor agregado:

  • Aparas: US$0,30/kg
  • Couro salgado: US$0,51/kg
  • Wet-blue: US$0,92/kg
  • Crust: US$9,13/kg
  • Couro acabado: US$11,43/kg

A diferença é significativa. Produtos mais processados chegam a valer mais de 10 vezes o preço das matérias-primas.

O que isso significa para o pecuarista?

Para o produtor, o cenário do couro bovino reforça a importância de acompanhar não apenas o volume de abate, mas também a dinâmica da indústria e do mercado internacional.

A valorização recente no preço interno é positiva, mas o enfraquecimento do faturamento externo indica desafios estruturais para a cadeia.

O avanço das exportações com menor valor agregado limita o potencial de crescimento da receita e mostra que há espaço para maior industrialização e agregação de valor dentro do país.