O fortalecimento do El Niño pode interferir na oferta de gado para abate no Brasil e contribuir para a sustentação dos preços do boi gordo nos próximos meses. Os efeitos, porém, devem variar entre as principais regiões produtoras do país.
A avaliação é da analista da Datagro Beatriz Bianque. Segundo informações divulgadas pelo Canal Rural, enquanto o Norte enfrenta condições mais secas, o Sudeste tende a registrar maior volume de chuvas, criando impactos distintos sobre os sistemas de produção.
O clima passa, assim, a integrar a lista de fatores acompanhados pelo pecuarista em um momento em que a arroba apresenta maior firmeza e os frigoríficos trabalham com escalas de abate mais curtas.
Seca pode atrasar terminação a pasto no Norte
Na Região Norte, a principal preocupação está relacionada ao tempo seco e seus efeitos sobre as pastagens.
Com menor disponibilidade de forragem, a terminação dos bovinos mantidos a pasto pode levar mais tempo. Consequentemente, parte da oferta destinada aos frigoríficos pode ficar mais dependente de sistemas intensivos de terminação.
Esse cenário pode interferir no momento em que os animais ficam prontos para o abate e, consequentemente, na disponibilidade de gado para a indústria.
Na região central do país, por outro lado, as condições climáticas permanecem relativamente próximas do padrão, segundo a análise da Datagro.
Chuva favorece pastagens, mas exige atenção no confinamento
No Sudeste, os impactos do El Niño aparecem de outra forma. A maior quantidade de chuva tende a beneficiar as pastagens, melhorando as condições para os sistemas de produção a campo.
Para os confinamentos, entretanto, o excesso de precipitação pode trazer dificuldades operacionais e aumentar a necessidade de atenção ao manejo.
Dessa forma, o mesmo fenômeno climático pode provocar efeitos diferentes sobre a pecuária brasileira dependendo da região e do sistema utilizado para a terminação dos animais.
Chuva também pode favorecer estação de monta
Os reflexos do clima não ficam restritos aos animais destinados ao abate.
A maior disponibilidade de chuva em determinadas regiões pode antecipar e fortalecer a estação de monta, justamente em um momento de transição do ciclo pecuário.
Segundo a Datagro, os preços do gado de reposição e do bezerro vêm aumentando o estímulo à atividade de cria, movimento que deve continuar no radar do mercado ao longo do segundo semestre.
As condições das pastagens e a disponibilidade de alimento passam a ter papel importante nesse processo, influenciando as decisões reprodutivas dentro das propriedades.
Arroba do boi opera perto de R$ 350
Em meio às mudanças na oferta, os preços do boi gordo apresentam maior firmeza em setembro.
Na praça de referência de São Paulo, a arroba opera ao redor de R$ 350. Segundo a Datagro, parte dessa sustentação está relacionada às escalas mais curtas dos frigoríficos, próximas de seis dias corridos na média brasileira.
A combinação entre uma menor disponibilidade imediata de animais e os possíveis efeitos do clima sobre a terminação coloca a oferta de gado entre os principais fundamentos a serem acompanhados pelo mercado nos próximos meses.
China pode reforçar demanda pela carne bovina
Do outro lado dessa equação está a demanda. Segundo a análise, o mercado doméstico mantém bom escoamento da carne bovina, embora a desaceleração da atividade econômica seja um ponto de atenção para 2027.
No mercado internacional, a expectativa é de fortalecimento da demanda nos últimos meses do ano, principalmente diante da possibilidade de retomada das compras chinesas de carne bovina brasileira.
Os Estados Unidos também seguem com participação importante no escoamento da produção nacional, reforçando o papel da diversificação dos destinos das exportações.
Com isso, clima, disponibilidade de animais, ritmo dos frigoríficos e comportamento da demanda interna e externa formam um conjunto de fatores que deve orientar o mercado do boi nos próximos meses. Para o produtor, os efeitos do El Niño sobre pastagens e terminação passam a exigir atenção especial, já que podem alterar o ritmo de chegada dos animais ao abate.
Fonte: Canal Rural, com informações da Datagro