Importação de carne bovina: cotas da China reconfiguram a pecuária brasileira
Nova política comercial não interrompe compras, mas muda a previsibilidade do mercado e afeta decisões produtivas ao longo do ciclo pecuário
Por Cássia Carolina
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A adoção de cotas anuais pela China para a importação de carne bovina inaugura uma nova etapa na relação comercial com os grandes fornecedores globais e impõe uma reorganização silenciosa, porém estrutural, ao mercado pecuário brasileiro. A medida entra em vigor a partir deste ano e terá validade inicial de três anos.
FOTO: Divulgação l Abiec
Pelo novo modelo, os volumes importados dentro da cota permanecem sujeitos à tarifa de 12%. Já o excedente passa a ser taxado em 55%, o que altera de forma relevante a competitividade fora do limite estabelecido. Para o Brasil, responsável por cerca de metade da receita chinesa com compras externas de carne bovina, o impacto não está em um corte imediato, mas na mudança do ambiente de previsibilidade.
O que muda no fluxo da importação de carne bovina
A cota anunciada cobre aproximadamente 65% do volume atualmente exportado pelo Brasil. Isso cria um excedente estrutural que dificilmente será realocado no curto prazo, considerando a capacidade limitada de absorção de outros mercados.
Essa mudança retira do mercado um dos pilares que vinham sustentando, de forma contínua, a expansão da produção e a intensificação da pecuária brasileira nos últimos anos.
Cotas ampliam poder de barganha da China
Diferentemente de embargos sanitários ou medidas emergenciais, as cotas funcionam como um instrumento estrutural de controle de oferta. Elas permitem à China reduzir sua dependência marginal da proteína importada sem comprometer o abastecimento interno, ao mesmo tempo em que ampliam o poder de barganha sobre preços e prazos.
“Ao estabelecer um teto formal, Pequim ganha flexibilidade para comprar quando quiser e pressionar preços em momentos de excesso de oferta, evitando repasses inflacionários ao consumidor doméstico”, avalia Yedda.
FOTO: Divulgação
Para o pecuarista brasileiro, o efeito aparece menos no embarque imediato e mais nas decisões estratégicas. A partir de 2026, o setor tende a operar com maior cautela, o que pode desacelerar a expansão do rebanho, reduzir investimentos em confinamento e alongar o ciclo pecuário como forma de diluir riscos.
Reflexos indiretos sobre milho e soja
É por esse canal que a decisão chinesa ultrapassa a pecuária e alcança os mercados de grãos. Embora o consumo direto de milho pela bovinocultura represente uma parcela menor do total nacional, ele exerce papel relevante como demanda marginal, especialmente em momentos de excesso de oferta.
Nos últimos ciclos, a combinação de preços firmes da carne, sustentados pela demanda chinesa, e grãos pressionados por safras elevadas favoreceu a intensificação da produção e o uso de ração. Com as cotas, essa sustentação deixa de ser estrutural e passa a ser mais oportunista.
“O impacto não aparece no embarque, mas na decisão produtiva. Quando a previsibilidade do escoamento diminui, o produtor ajusta a margem, e isso se reflete no consumo de milho e farelo de soja”, explica a analista.
Ajuste gradual ao longo de 2026
No curto prazo, os efeitos tendem a ser limitados, especialmente se o milho continuar pressionado pela oferta. Já no médio prazo, a partir do segundo semestre de 2026, o cenário mais provável é de menor crescimento do consumo de grãos pela pecuária, aumentando a dependência de outros vetores de absorção, como exportações e etanol.
A avaliação do mercado é de ajuste fino, não de ruptura. As cotas chinesas não desmontam a dinâmica da importação de carne bovina, mas alteram o ritmo e a previsibilidade que vinham sustentando a relação entre pecuária e grãos.
“É um ajuste que pesa mais do que parece, porque ocorre justamente quando o mercado precisa de demanda adicional para equilibrar excedentes. Tratar a sustentação chinesa como infinita passa a ser um erro estratégico”, conclui Yedda Monteiro.