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Mulheres ampliam protagonismo e já ocupam 40% das decisões no campo

Estudo revela avanço da participação feminina na gestão rural, com maior presença na propriedade, qualificação profissional, uso de tecnologia e bons indicadores de crédito

Cassia Carolina Cassia Carolina • 6 de outubro de 2026 às 17h04

A presença feminina está cada vez mais ligada às principais decisões tomadas dentro das propriedades rurais brasileiras. As mulheres já representam 40% dos 10,7 milhões de produtores rurais considerados decisores no Brasil, mostrando um avanço que também aparece na gestão dos negócios, na formação profissional, no uso de tecnologia e no acesso ao crédito.

Os dados fazem parte do estudo “Perfil da Mulher do Agronegócio Brasileiro: 10 anos de transformação e avanços”, lançado pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) durante o Global Agribusiness Festival (GAFFFF), realizado em São Paulo.

O levantamento reúne dados nacionais de mercado e pesquisas quantitativas e qualitativas com mulheres de diferentes regiões do país. A iniciativa conta com participação da Serasa Experian, Fran6 Pesquisa e Sistema FAESP/SENAR.

Mais presentes na propriedade

Um dos principais movimentos identificados ao longo dos últimos dez anos está na participação direta das mulheres nos negócios rurais.

Entre as entrevistadas na etapa quantitativa, 91% afirmaram ser proprietárias, total ou parcialmente, do negócio rural. O percentual representa um crescimento de 10 pontos percentuais em comparação ao resultado registrado há uma década.

A evolução também é acompanhada por um salto na qualificação profissional. Em 2015, 24% das gestoras pesquisadas possuíam pós-graduação. Em 2026, o índice chegou a 46%. Atualmente, 77% têm ensino superior completo.

Para a diretora executiva da ABAG, Gislaine Balbinot, essa transformação mostra que a participação feminina está avançando em diferentes frentes do setor.

“Nos últimos dez anos, a mulher ampliou sua presença nas decisões estratégicas do agronegócio e conquistou maior espaço na propriedade e na condução dos negócios. Os dados mostram uma transformação que envolve formação, tecnologia, gestão e acesso ao crédito”, destaca.

Tecnologia amplia autonomia na gestão

A modernização das propriedades também faz parte desse cenário. Drones, telemetria, sistemas de gestão e outras ferramentas digitais já estão presentes na rotina de 71% das gestoras entrevistadas, que afirmam utilizar essas tecnologias de maneira independente ou parcialmente independente.

O resultado mostra que a tecnologia vem acompanhando a maior participação feminina na administração das propriedades, oferecendo novas ferramentas para planejamento, acompanhamento da produção e tomada de decisões.

Mulheres apresentam menor inadimplência

O comportamento financeiro também aparece entre os destaques do levantamento. Segundo os dados analisados pela Serasa Experian, as produtoras rurais registraram taxas de inadimplência inferiores às dos homens. Entre as grandes proprietárias, o índice ficou em 6,85%.

Na Região Sul, a taxa de inadimplência entre as mulheres foi ainda menor, chegando a 5,4%.

Para Sabrina Muñoz, gerente executiva de GeoData e Analytics – Agronegócio da Serasa Experian, os números reforçam a confiabilidade da gestão feminina nas relações de crédito.

“Ao cruzarmos diferentes bases de dados, conseguimos observar com clareza a solidez econômica da mulher no campo. A prudência financeira aliada a um rigor exemplar em práticas de compliance socioambiental e ESG coloca a gestão feminina em um patamar de altíssima confiabilidade para o mercado de crédito e para o desenvolvimento de um agronegócio sustentável”, afirma.

Indicadores ambientais também chamam atenção

O estudo ainda analisou informações relacionadas à conformidade ambiental das propriedades rurais.

Nos dados considerados pelo levantamento, 77% dos registros relacionados a trabalho escravo estão associados a CPFs masculinos, enquanto 5% aparecem relacionados às mulheres.

Em relação ao desmatamento registrado pelo Prodes, 67% das ocorrências analisadas estão vinculadas a homens e 20% a mulheres.

De acordo com a pesquisa, propriedades sob comando exclusivamente feminino concentram uma parcela reduzida das restrições legais e dos passivos ambientais avaliados.

Liderança feminina além dos números

Para entender como essa transformação acontece na prática, o estudo também realizou 25 entrevistas em profundidade com produtoras, pecuaristas e mulheres ligadas à agroindústria de diferentes regiões brasileiras.

Os relatos revelam desafios que ainda fazem parte da rotina, como barreiras culturais e a conciliação entre diferentes responsabilidades. Ao mesmo tempo, mostram a importância das redes de apoio, do cooperativismo, da capacitação e da participação familiar para o fortalecimento das mulheres na gestão.

O levantamento identifica ainda características como diálogo, planejamento e uma visão mais ampla do negócio entre os aspectos presentes nos modelos de liderança analisados.

Sustentabilidade faz parte da estratégia

A pesquisa também mostra que sustentabilidade e eficiência produtiva vêm caminhando juntas na gestão das propriedades.

Entre as práticas adotadas pelas mulheres aparecem bioinsumos, biodigestores, manejo hídrico, bem-estar animal e genômica, ferramentas que contribuem tanto para a produção quanto para a preservação dos recursos e do patrimônio rural.

Segundo Juliana Farah, presidente da Comissão Semeadoras do Agro da FAESP, conhecimento e autonomia são peças importantes para ampliar ainda mais a participação feminina.

“A presença das mulheres no campo se fortalece quando conhecimento, autonomia e capacidade de decisão caminham juntos. O acesso à capacitação técnica e à informação amplia as condições para que elas assumam novas responsabilidades, desenvolvam seus negócios e participem de forma ainda mais ativa das organizações do setor”, afirma.

De proprietárias a gestoras, passando pela adoção de novas tecnologias e pela participação nas decisões estratégicas, os resultados mostram uma transformação construída ao longo da última década. Com mais qualificação, autonomia e presença dentro da porteira, as mulheres ampliam seu espaço e assumem um papel cada vez mais relevante nos rumos do agronegócio brasileiro.

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