Como os dejetos bovinos estão mudando a gestão econômica dos confinamentos
O reaproveitamento dos dejetos bovinos reduz custos, minimiza passivos ambientais e cria novas oportunidades de renda no confinamento
Por Cássia Carolina
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A gestão dos dejetos bovinos vem passando por uma mudança importante dentro dos confinamentos brasileiros. O que por muitos anos foi tratado apenas como um desafio ambiental começa a ganhar espaço como ferramenta de eficiência produtiva, redução de custos e geração de renda para o pecuarista.
FOTO: Marcella Pereira
Dados do Benchmarking do Confina Brasil, pesquisa-expedicionária conduzida pela Scot Consultoria, mostram que 95,5% dos confinamentos brasileiros realizam a coleta dos dejetos bovinos em 2025. Apenas 4,5% das propriedades ainda não adotam essa prática, sinalizando um avanço significativo na gestão ambiental do sistema intensivo.
Por que os dejetos bovinos exigem atenção no confinamento?
Na pecuária de corte nacional, aproximadamente 90% da produção ocorre em sistemas de pastagem, onde os dejetos bovinos são naturalmente incorporados ao solo e reutilizados pelas forrageiras. No confinamento, porém, a alta concentração de animais exige planejamento e manejo específico, sob risco de transformar os dejetos em passivo ambiental.
Segundo a Scot Consultoria, 86,2% dos confinamentos já contam com sistemas de drenagem nos currais de engorda. Essas estruturas são fundamentais para controlar a umidade, reduzir a formação de lama e melhorar o conforto dos bovinos, além de facilitar a coleta dos dejetos.
A eficiência operacional nesse ponto é decisiva para viabilizar o reaproveitamento dos dejetos bovinos de forma segura e econômica.
Reaproveitamento cresce dentro e fora da fazenda
Entre as propriedades que realizam a coleta, 91,2% já aproveitam os dejetos bovinos, seja na própria fazenda ou em áreas externas. O uso ocorre tanto da fração sólida, adotada por 98,7% das propriedades que reciclam, quanto da fração líquida, utilizada por 36,1%.
A principal destinação é a aplicação em lavouras (78,7%), seguida pelo uso em pastagens (63,9%). Além disso, 13,5% das propriedades comercializam o excedente, mostrando que os dejetos bovinos já começam a se consolidar como um coproduto com valor de mercado.
Esse modelo ganha força especialmente em sistemas integrados de agricultura e pecuária, onde a circularidade de nutrientes aumenta a eficiência do uso da terra.
Alta dos fertilizantes muda a lógica econômica
O cenário de preços elevados dos fertilizantes reforça essa mudança de mentalidade. Segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), 94,3% dos fertilizantes utilizados pela agricultura brasileira em 2025 foram importados. Entre janeiro e outubro do ano, o Brasil importou cerca de 38,3 milhões de toneladas do insumo.
Essa dependência externa tem impacto direto nos custos de produção. Dados da Conab indicam que os fertilizantes representam entre 20% e 30% do custo total de produção dos principais grãos.
Nesse contexto, o uso dos dejetos bovinos como fertilizante orgânico reduz a exposição à volatilidade dos preços e passa a integrar a gestão de risco do confinamento.
Potencial econômico chama a atenção
Uma estimativa da Scot Consultoria, elaborada em janeiro de 2025 com base nos dados do Confina Brasil 2024, projeta um potencial econômico de até R$ 350 milhões por ano com o aproveitamento dos dejetos bovinos nos confinamentos.
O cálculo considera uma produção anual aproximada de 2,7 milhões de toneladas de esterco bovino.
Preço médio do esterco bruto: R$ 130,00 por tonelada
Material compostado e enriquecido: cerca de R$ 160,00 por tonelada
Na prática, os valores variam conforme região, oferta, demanda e nível de tratamento:
Esterco bruto: R$ 80,00/t a R$ 130,00/t
Esterco compostado/enriquecido: R$ 100,00/t a R$ 200,00/t
Quando há enriquecimento com fósforo, o valor agregado tende a ser ainda maior, ampliando o retorno econômico do insumo.
Dejetos bovinos entram na estratégia do confinamento
Além de reduzir impactos ambientais e diminuir a dependência de fertilizantes químicos, o reaproveitamento dos dejetos bovinos pode gerar renda adicional, melhorar o aproveitamento de nutrientes e aumentar a rentabilidade da operação.
A gestão eficiente dos dejetos deixa de ser apenas uma exigência ambiental e passa a ocupar espaço central na estratégia econômica dos confinamentos brasileiros.