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Fim da cota chinesa preocupa pecuaristas e leva frigoríficos a reduzir abates no Brasil

Redução no ritmo de abates, férias coletivas e expectativa de pressão sobre o preço da arroba marcam os primeiros efeitos do fim da cota chinesa para a carne bovina brasileira

Cassia Carolina Cassia Carolina • 5 de julho de 2026 às 06h00

O fim da cota chinesa para importação de carne bovina brasileira sem incidência de tarifas já começa a provocar reflexos na cadeia pecuária nacional. Frigoríficos reduziram o ritmo de abates, anunciaram férias coletivas e passaram a ajustar a produção diante da expectativa de menor competitividade das exportações para o principal destino da carne bovina do Brasil.

As informações foram divulgadas nesta quinta-feira (2/7) pelo Canal Rural e mostram que o setor acompanha de perto o esgotamento do limite de aproximadamente 1,106 milhão de toneladas de carne bovina que podem entrar na China sem cobrança adicional de tarifas. A expectativa é que esse volume seja totalmente utilizado entre julho e agosto.

A medida faz parte do mecanismo de salvaguarda adotado pelo governo chinês para estimular a produção interna. A partir do esgotamento da cota, toda carne bovina exportada acima desse limite passa a sofrer tributação, aumentando o custo do produto brasileiro no mercado chinês.

Fim da cota chinesa reduz ritmo de abates nos frigoríficos

Com a perspectiva de menor demanda da China, indústrias frigoríficas já iniciaram ajustes operacionais para equilibrar a produção. Entre as medidas adotadas estão férias coletivas, redução de turnos e diminuição do número de animais abatidos.

Segundo o coordenador de Inteligência de Mercado da Safras & Mercado, Fernando Iglesias, o cenário já era esperado pelo setor.

“A expectativa era de que a cota fosse concluída entre julho e agosto, e é exatamente isso que estamos acompanhando. As indústrias estão adequando a produção para um ambiente em que a China não terá uma participação tão ativa nas importações.”

De acordo com o analista, a China representa quase metade das exportações brasileiras de carne bovina e responde por aproximadamente 15% a 20% da produção nacional, o que explica a necessidade de adequação das plantas frigoríficas.

Pecuarista pode sentir pressão sobre o preço da arroba

Entre os diferentes elos da cadeia, o pecuarista deve ser um dos primeiros a perceber os efeitos do novo cenário.

Na avaliação de Fernando Iglesias, a redução da demanda por parte da indústria tende a exercer pressão sobre os preços da arroba do boi gordo.

“Normalmente, esse tipo de movimentação impacta mais a ponta da cadeia representada pelo pecuarista. Devemos observar quedas mais expressivas no preço da arroba.”

O analista também avalia que os preços da carne bovina no atacado podem recuar. No entanto, esse movimento dificilmente será repassado na mesma intensidade ao consumidor final, já que o varejo costuma absorver parte dessa redução.

Frigoríficos antecipam medidas para enfrentar o novo cenário

No Rio Grande do Sul, onde apenas duas plantas frigoríficas estão habilitadas a exportar carne bovina para a China, uma delas já entrou em férias coletivas.

Segundo o presidente executivo do Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos do Rio Grande do Sul (Sicadergs), Ronei Lauxen, as empresas começaram a se preparar antes mesmo do esgotamento oficial da cota.

“A indústria gaúcha está vendo essa situação com muita preocupação. Já adotou medidas de redução dos abates e interrompeu a produção destinada ao mercado chinês, porque ainda há muita carne produzida e em trânsito.”

De acordo com ele, o objetivo é adequar a oferta enquanto o mercado aguarda uma definição para o cenário comercial.

Diversificação dos mercados ganha ainda mais importância

Além dos ajustes internos, o setor intensifica a busca por novos destinos para a carne bovina brasileira como forma de reduzir a dependência do mercado chinês.

Entre os desafios apontados está a possibilidade de novas exigências da União Europeia para importação de carne bovina a partir de setembro. Ao mesmo tempo, representantes da indústria destacam que outros compradores seguem apresentando demanda consistente, entre eles os Estados Unidos.

Na avaliação do setor, ampliar e consolidar novos mercados internacionais será fundamental para reduzir os impactos provocados pelo fim da cota chinesa e fortalecer a competitividade da carne bovina brasileira diante das mudanças nas regras do comércio internacional.

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