FOTO: Divulgação Arco
A produção de lã no Rio Grande do Sul pode alcançar 8 milhões de quilos nesta safra, mesmo diante das dificuldades provocadas pelas chuvas e pelas baixas temperaturas. As condições climáticas têm atrasado a esquila de ovinos em algumas propriedades, exigindo atenção dos criadores para preservar a qualidade da fibra e evitar perdas na comercialização.
Segundo informações divulgadas pela Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), nesta última quarta-feira (28/10), o excesso de umidade registrado nos últimos meses gerou preocupação entre os produtores. No entanto, os prejuízos à qualidade da lã ficaram abaixo do esperado, mantendo perspectivas positivas para a atividade.
Chuvas e frio dificultam a esquila de ovinos
As condições climáticas desfavoráveis têm levado produtores gaúchos a adiar a retirada da lã dos animais. De acordo com o coordenador do Programa de Lã Certificada da Arco, Sérgio Muñoz, algumas equipes de esquila aguardam a melhora do tempo para retomar os trabalhos.
No município de Herval, por exemplo, uma comparsa de esquila permanece parada enquanto os criadores esperam temperaturas mais elevadas para realizar o procedimento. Além de comprometer o calendário da atividade, o atraso aumenta o risco de contaminação da fibra por plantas presentes nas pastagens, como a flechilha, mais frequente a partir de novembro.
As sementes dessa planta possuem estruturas pontiagudas que se prendem à lã dos ovinos, dificultando o processamento e prejudicando a qualidade do produto destinado à indústria têxtil.
Outro fator de preocupação foi o volume de chuvas registrado em agosto, que chegou a acumular entre 600 e 700 milímetros em algumas regiões. A umidade excessiva pode provocar alterações na coloração da lã e favorecer a presença de fungos.
Apesar desse cenário, Muñoz avalia que os danos foram menores do que os inicialmente previstos.
Produção de lã pode alcançar 8 milhões de quilos no estado
A estimativa da Arco é que a produção de lã no Rio Grande do Sul atinja aproximadamente 8 milhões de quilos nesta safra. Desse volume, entre 2 milhões e 3 milhões de quilos podem apresentar características adequadas para alcançar bom valor no mercado têxtil.
A entidade, entretanto, destaca que ainda existem dificuldades para determinar com precisão a quantidade de lã de maior qualidade disponível no estado.
Um dos fatores que influenciam esse cenário é a mudança no perfil dos rebanhos. Após a queda dos preços da lã durante a pandemia e nos anos seguintes, parte dos criadores passou a realizar cruzamentos de raças laneiras com animais voltados à produção de carne.
Essa estratégia contribuiu para modificar as características produtivas de alguns rebanhos, reduzindo a qualidade têxtil de parte da lã produzida.
Certificação pode agregar valor à lã produzida
A certificação é uma das ferramentas utilizadas para fortalecer a competitividade da produção de lã e atender às exigências do mercado.
Atualmente, a Arco possui 12 comparsas de esquila cadastradas em seu site. Entretanto, nem todas devem atuar com certificação durante toda a temporada, já que algumas equipes também atendem propriedades que não participam do programa.
Profissionais do Uruguai também trabalham na esquila de rebanhos gaúchos, principalmente na região da Fronteira Oeste. Por enquanto, a associação ainda não tem uma estimativa definitiva sobre o volume de lã que receberá certificação ao final da safra.
Para os criadores, a adoção de procedimentos adequados durante a esquila, a classificação e o acondicionamento da fibra é fundamental para preservar a qualidade do produto e ampliar as oportunidades de comercialização.
Mercado internacional apresenta perspectivas favoráveis
Apesar dos desafios enfrentados pelos produtores, o cenário internacional apresenta oportunidades para a cadeia produtiva da lã. Segundo Sérgio Muñoz, a redução dos rebanhos e da oferta mundial da fibra contribui para um ambiente de mercado mais favorável.
Durante um encontro recente no Uruguai, que reuniu representantes de compradores e da indústria internacional, o coordenador observou que a procura por lã certificada continua acompanhada de exigências rigorosas em relação à qualidade do produto.
Nesse contexto, a orientação da Arco é que os criadores invistam na certificação e adotem boas práticas de acondicionamento da lã, buscando atender aos padrões exigidos pelos compradores e agregar valor à produção.
No Brasil, a aquisição de lã certificada pela indústria ainda avança lentamente. Mesmo assim, a expectativa é de que o mercado interno acompanhe gradualmente as exigências internacionais.
Para a ovinocultura gaúcha, o desafio desta safra será conciliar os efeitos do clima com a preservação da qualidade da fibra, aproveitando as oportunidades de um mercado que valoriza cada vez mais a origem e os padrões de produção da lã.