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O El Niño já começou a mostrar seus efeitos no Brasil e pode se tornar o mais intenso dos últimos 76 anos. Com possibilidade de permanecer ativo até o início do outono de 2027, o fenômeno coloca o clima entre os principais fatores que o pecuarista precisará acompanhar nos próximos meses, principalmente pelos possíveis reflexos sobre as chuvas, as pastagens e a disponibilidade de água nas propriedades.
Segundo informações divulgadas pelo Canal Rural, com base em análise da Climatempo, os efeitos do fenômeno começaram a ser percebidos no país em julho e continuam em agosto. O El Niño já pode ser considerado de forte intensidade e a tendência é de fortalecimento nos próximos meses.
A atualização mais recente sobre as condições do Oceano Pacífico Equatorial, divulgada na segunda-feira (10/8) pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), indica que todos os critérios técnicos que caracterizam o fenômeno continuam sendo observados.
Uma das principais características do El Niño é o aquecimento acima do normal das águas das porções central e leste do Oceano Pacífico Equatorial, próximo às costas do Peru e do Equador.
Para a configuração do fenômeno, a anomalia média da temperatura da superfície do mar nessa região deve permanecer pelo menos 0,5°C acima da média por cinco meses consecutivos. Na avaliação mais recente da NOAA, essa anomalia estava em 1,8°C acima da média.
El Niño tem 81% de chance de ser muito forte
As projeções meteorológicas aumentam a possibilidade de o atual El Niño alcançar intensidade muito forte. Segundo a NOAA, a probabilidade é de 81%.
A expectativa é de que o fenômeno atinja seu pico entre meados da primavera e o início do verão de 2026/2027. Além da força prevista, a duração também chama atenção.
A comunidade meteorológica trabalha com a perspectiva de um evento prolongado, com os padrões associados ao El Niño permanecendo no Oceano Pacífico Equatorial durante todo o verão do Hemisfério Norte.
No Brasil, isso significa que os efeitos podem continuar sendo sentidos até pelo menos o começo do outono de 2027, mantendo o clima como variável importante no planejamento das propriedades durante os próximos meses.
Como o El Niño pode afetar a pecuária?
Os efeitos do El Niño não ocorrem da mesma maneira em todas as regiões brasileiras. De forma geral, o fenômeno costuma favorecer volumes maiores de chuva e umidade no Sul, enquanto áreas do Centro-Oeste, Nordeste e Centro-Norte podem enfrentar secas, ondas de calor, irregularidade das precipitações e atraso no estabelecimento do período chuvoso.
Para a pecuária, essa diferença regional pode trazer desafios distintos.
Nas regiões onde houver redução ou atraso das chuvas, um dos principais pontos de atenção é a produção de pastagens. A menor disponibilidade hídrica pode comprometer a recuperação e o desenvolvimento do capim, reduzindo a oferta de alimento para o gado justamente em períodos importantes para a retomada das pastagens.
Nesse cenário, o produtor pode precisar rever estratégias de lotação e suplementação e acompanhar com maior atenção seus estoques de volumoso para evitar que uma eventual redução na oferta de forragem comprometa o desempenho do rebanho.
Água e calor também entram na conta
Outro fator relevante é a disponibilidade de água. Temperaturas elevadas combinadas a períodos prolongados de pouca chuva podem reduzir o nível de reservatórios, açudes e outras fontes utilizadas para a dessedentação dos animais.
O calor intenso também pode aumentar a demanda por água e afetar o conforto térmico dos bovinos, especialmente quando há pouca disponibilidade de sombra ou condições inadequadas de manejo.
No Sul, por outro lado, o possível excesso de chuva traz outro conjunto de desafios. Solos encharcados e formação de barro podem dificultar o acesso dos animais às áreas de pastejo e exigir atenção adicional ao manejo e às condições sanitárias.
Planejamento pode fazer diferença até 2027
Diante da possibilidade de um El Niño muito forte e prolongado, acompanhar as previsões regionais passa a ser uma ferramenta importante para a tomada de decisão dentro da porteira.
Avaliar antecipadamente a disponibilidade de água, dimensionar reservas de alimento, acompanhar a capacidade de suporte das pastagens e preparar alternativas para eventuais períodos de déficit hídrico são estratégias que podem ajudar o produtor a enfrentar um cenário climático mais irregular.
Apesar das projeções indicarem um evento de grande intensidade, os impactos dependem da região e da evolução das condições atmosféricas ao longo dos próximos meses.
Para o pecuarista, portanto, mais do que acompanhar a classificação do fenômeno, será importante observar como o El Niño vai interferir no regime de chuvas de cada região. Com efeitos que podem avançar até o outono de 2027, antecipar o planejamento de pasto, água e alimentação pode fazer diferença no desempenho do rebanho e nos custos da propriedade.