FOTO: Fábio Pozzebom l Agência Brasil
O El Niño 2026 entrou oficialmente no radar da pecuária brasileira. Um boletim conjunto divulgado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) e órgãos federais de monitoramento climático aponta que o fenômeno já apresenta padrão típico no Oceano Pacífico Equatorial e tem mais de 90% de probabilidade de persistir até o início de 2027, com possibilidade de atingir intensidade muito forte entre a primavera e o verão.
Para o produtor rural, o alerta vai além da meteorologia. Pesquisadores do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP) avaliam que o principal efeito do El Niño 2026 será o aumento da volatilidade climática e produtiva, com impactos distintos entre regiões e cadeias pecuárias.
O que o boletim oficial indica
Monitoramento oficial
Fenômeno já está configurado
Segundo o boletim nº 1 divulgado em 29 de junho por INMET, INPE, ANA, CEMADEN, SGB e SEDEC, as águas do Pacífico Equatorial próximas à América do Sul apresentam anomalias superiores a 2°C, característica de um El Niño muito forte.
Jul–Ago–Set/2026
Chuvas acima da média no Sul
A previsão climática indica chuvas acima da média na Região Sul e chuvas abaixo da média no centro-norte do País no trimestre julho-agosto-setembro de 2026.
2º semestre
Calor acima da média e risco de incêndios
O documento também aponta alta probabilidade de temperaturas acima da média no segundo semestre, favorecendo ondas de calor e aumento do risco de incêndios florestais.
O que muda para a pecuária
Na avaliação do Cepea, o pecuarista deve tratar o El Niño 2026 como um fator de aumento de risco, e não como um impacto uniforme em todo o Brasil.
Quatro pontos de atenção imediata
- Pastagens
Disponibilidade de forragem e água
Veranicos prolongados, recuperação lenta das chuvas e temperaturas elevadas podem reduzir o crescimento das forrageiras e a capacidade de suporte das áreas. - Silagem e feno
Qualidade das forragens conservadas
O clima pode afetar tanto a produção quanto o preço de milho, sorgo, silagem, feno e outros volumosos usados na suplementação. - Conforto térmico
Ambiência e sanidade
Calor intenso reduz consumo, ganho de peso, fertilidade e produção de leite. Excesso de chuva aumenta lama, mastite, doenças respiratórias e problemas de casco. - Custos
Alimentação animal mais cara
Milho, farelo de soja, silagem e outros insumos passam a ter maior sensibilidade climática, pressionando as margens de praticamente todas as cadeias pecuárias.
Fonte: Equipe de Pecuária do Cepea/Esalq-USP.
Impactos por cadeia produtiva
Bovinos de corte
Mais pressão sobre pasto e água
Os efeitos tendem a se concentrar em qualidade das pastagens, disponibilidade de água, estresse térmico e aumento do custo da suplementação.
Leite
Volumoso e concentrado no centro da conta
O impacto aparece na produção de volumosos, no custo do concentrado e no conforto térmico das vacas.
Ovinos e caprinos
Nordeste e Sul exigem estratégias diferentes
No Nordeste, o risco maior é a redução de água e forragem. No Sul, o excesso de chuva pode agravar problemas sanitários e comprometer a qualidade das pastagens.
Suínos e aves
Ração e energia mais sensíveis ao clima
Temperaturas elevadas podem reduzir desempenho produtivo, afetar fertilidade e elevar o consumo de energia, pressionando as margens.
Região por região: onde o risco é maior?
| Região | Risco predominante |
| Sul | Chuvas acima da média, excesso de umidade, lama e desafios sanitários. |
| Centro-Oeste | Irregularidade das chuvas, veranicos e calor persistente. |
| Sudeste | Temperaturas elevadas e períodos secos mais frequentes. |
| Norte/Nordeste (faixa norte) | Maior risco de seca e redução da disponibilidade hídrica. |
A leitura regional é baseada no boletim oficial do MAPA e na análise da Equipe de Pecuária do Cepea.
Planejamento
Cinco ações práticas para o pecuarista agora
- Mapear áreas críticas de pastagem e revisar a lotação antes do pico do calor.
- Garantir reserva estratégica de água e manutenção de bebedouros.
- Antecipar a formação de silagem, feno e estoques de suplementação.
- Reforçar sombra, ventilação e manejo de conforto térmico, principalmente para raças taurinas e vacas em lactação.
- Acompanhar mensalmente as atualizações do boletim oficial para ajustar compras, vendas e manejo do rebanho.
Monitoramento será mensal
O MAPA informou que o boletim sobre o El Niño 2026 será atualizado mensalmente pelos órgãos federais responsáveis pelo monitoramento climático, recursos hídricos e gestão de riscos. A recomendação é que produtores acompanhem as atualizações para ajustar o planejamento da safra, da alimentação animal e da gestão hídrica das propriedades.