
FOTO: Reprodução l Agro Online
A morte de 48 vacas leiteiras em uma propriedade rural de Novo Xingu, no norte do Rio Grande do Sul, está sendo investigada por órgãos oficiais e acendeu um alerta importante para o pecuarista quanto aos riscos de intoxicação alimentar no rebanho. O caso, divulgado inicialmente pelo Globo Rural, gerou um prejuízo estimado em R$ 600 mil à família produtora.
As mortes ocorreram ao longo de apenas três dias e atingiram exclusivamente vacas em lactação. A principal suspeita é de intoxicação por excesso de nitrito, composto que pode se formar no pasto em determinadas condições climáticas e de manejo.
Investigação em andamento
A Inspetoria Veterinária de Constantina, responsável pela região, realizou a coleta de vísceras dos animais, além de amostras de água, ração, silagem e pastagem presentes na propriedade. Os materiais seguem em análise laboratorial, e ainda não há prazo para a conclusão dos exames.
Especialistas que acompanham o caso trabalham com a hipótese de intoxicação alimentar, ligada ao consumo de pastagem com alto teor de nitrato, que no rúmen dos bovinos pode ser convertido em nitrito.
Como ocorre a intoxicação por nitrito
De acordo com a zootecnista Maíza Scheleski da Rosa, superintendente técnica substituta da Associação de Criadores de Gado Holandês do Rio Grande do Sul (Gadolando), a planta pode se tornar tóxica quando seu desenvolvimento é afetado por fatores ambientais.
Situações como seca seguida de chuva, longos períodos de dias nublados ou chuvosos após adubação nitrogenada, ou ainda excesso de nitrogênio no solo, favorecem o acúmulo de nitrato nas folhas do pasto.
Quando ingerido pelo animal, o nitrato é convertido em nitrito no rúmen. O problema ocorre quando essa conversão acontece de forma muito rápida. O nitrito entra na corrente sanguínea e impede o transporte de oxigênio, levando o animal à morte mesmo com respiração aparentemente normal.
O que aconteceu na propriedade
O caso teve início na madrugada do dia 2 de janeiro, quando o produtor encontrou quatro vacas mortas antes da ordenha. Ao longo do dia, outros animais passaram a apresentar sintomas como salivação intensa, falta de ar, prostração e incapacidade de se levantar.
Até o fim da tarde, 15 vacas haviam morrido. No dia seguinte, mais 16 animais foram encontrados sem vida e, até o domingo, todas as 48 vacas em lactação da propriedade morreram.
Animais que não estavam no mesmo piquete, como novilhas e vacas secas, não foram afetados, o que reforça a suspeita de intoxicação relacionada ao pasto específico utilizado pelas vacas em produção.
Além do impacto financeiro, a produção diária variava entre 1.200 e 1.400 litros de leite, gerando renda mensal de até R$ 100 mil, a família relata forte abalo emocional, já que os animais eram acompanhados individualmente.
Como prevenir a intoxicação no rebanho
A prevenção da intoxicação por nitrito no rebanho começa com o manejo correto da pastagem, especialmente em áreas que recebem adubação nitrogenada. É fundamental respeitar o intervalo recomendado entre a aplicação do fertilizante e a liberação dos animais para o pastejo, evitando o consumo de plantas ainda em fase de maior acúmulo de nitrato.
Também é indicado evitar adubações em períodos prolongados de tempo nublado ou chuvoso, pois essas condições podem comprometer o metabolismo das plantas e favorecer a concentração de compostos tóxicos nas folhas.
Outro ponto de atenção é o retorno do pastejo após períodos de seca seguidos por chuvas, situação considerada crítica para o risco de intoxicação. Nesses casos, o produtor deve redobrar o monitoramento da área e, sempre que possível, promover a adaptação gradual dos animais ao pasto recém-recuperado.
A oferta de suplementação alimentar também é uma estratégia importante, pois reduz o consumo excessivo da pastagem potencialmente contaminada. A combinação dessas medidas contribui para diminuir o risco de intoxicações e preservar a sanidade e o desempenho produtivo do rebanho leiteiro.