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Preço do leite cai no campo, mas continua alto nas prateleiras

Produtores enfrentam queda de mais de 8% na cotação, enquanto o consumidor paga mais caro pelos lácteos

Cassia Carolina Cassia Carolina 16 de outubro de 2025 às 14h59
Preço do leite cai no campo, mas continua alto nas prateleiras

FOTO: Atlas Company

O preço do leite pago aos produtores caiu mais de 8% nos últimos 12 meses, segundo dados do Cepea/Esalq-USP, mas essa queda não tem sido sentida pelo consumidor final. No mesmo período, a inflação dos produtos lácteos, medida pelo IPCA, foi de 3,4%, evidenciando o que analistas chamam de “descasamento” entre os valores praticados no campo e no varejo.

De acordo com o Globo Rural, o varejo passou por um processo de recomposição de margens após um período em que teve dificuldade para repassar altas ao consumidor. Agora, com o aumento da oferta e a estabilidade da demanda, os supermercados ajustam os preços para recuperar lucros.

“O preço ao produtor caiu muito, e essa queda ainda não chegou ao consumidor. Mas ela vai chegar. A tendência é que uma parte dela chegue de fato”, explica Glauco Rodrigues Carvalho, pesquisador da Embrapa Gado de Leite.

Segundo ele, o atraso no repasse reflete o fim de um ciclo de baixa oferta que durou de 2021 a 2023. “Naquela época, a remuneração melhorou para o produtor, enquanto o varejo apertou suas margens. Agora, com excesso de oferta, o varejo segura o preço para recompor a margem”, resume Carvalho.

Margens em recomposição

Levantamento do Centro de Inteligência do Leite da Embrapa mostra que a margem média do varejo com o leite UHT, historicamente de 20%, caiu para 11% em 2022 e só voltou à normalidade em junho deste ano. Desde então, os preços ao consumidor voltaram a refletir o comportamento do campo, ainda que de forma atenuada.

Segundo o IBGE, o leite longa vida é o único produto lácteo que acumula queda significativa no IPCA dos últimos 12 meses, com redução de 2,45%. Já o leite em pó e o leite condensado registraram altas de 9,68% e 6,79%, respectivamente, influenciadas pelos custos de importação.

Oferta em alta e rentabilidade em queda

O pesquisador Matheus Dias, do FGV Ibre, explica que o leite UHT é o produto mais sensível às oscilações do mercado interno, enquanto derivados importados seguem outra dinâmica. “A demanda não está fraca, mas não há espaço para grande oferta por muito tempo. Ajustes naturais na produção garantem rentabilidade e evitam quedas excessivas”, afirma.

No primeiro semestre, a captação de leite cresceu 6% em relação ao mesmo período de 2024, indicando estabilidade, mas sem perspectiva de grandes valorizações.

No entanto, para os pecuaristas de menor escala, o cenário é de preocupação. Segundo Darlan Palharini, secretário executivo do Sindilat-RS, o quadro já compromete a sustentabilidade de pequenas propriedades. “O abandono da atividade tem se concentrado entre quem produz até 300 litros de leite por dia justamente por causa desse comprometimento de resultado”, relata.

Entre produtores com captação acima de mil litros, a margem de lucro gira em torno de 7% a 8%, segundo estimativas do setor.

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